quinta-feira, 14 de novembro de 2024

APITO DE CACHORRO

Fernando Tolentino(*)

A vocação para o terrorismo é sem dúvida algo incontrolável.

Ainda no período do último ditador do regime militar, o Brasil aproximava-se de uma abertura política, que deixaria para trás anos de prisões, desaparecimentos, tortura e morte de adversários. Mas, no meio militar, não eram poucos os radicais que se opunham a tal distensão. 

Os atentados se sucediam, a deixar claro que não faltava quem estivesse decidido a resistir: bombas explodiam em bancas de revista, em fim de agosto de 1980, Dona Lyda Monteiro da Silva foi morta ao abrir um envelope com uma carta-bomba enviada à Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro. 

No Rio Centro milhares de pessoas assistiam a tradicional apresentação de artistas comprometidos com a redemocratização. Do lado de fora, uma bomba explodia acidentalmente dentro de um carro em que dois militares se preparavam para promover um atentado. Um sargento morreu com a explosão do artefato em seu colo, ficando mutilado o capitão que o acompanhava na ação terrorista. 

Viu-se que não era um fato isolado. Pretendiam que a explosão causasse imenso tumulto e provavelmente mortos e feridos. A ideia era responsabilizar grupos de esquerda pelo atentado e, assim, retardar a abertura democrática. 

Mas lembram que a história se repete "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”?

Faltam ainda pouco mais de dois meses para que se completem dois anos desde a grande ação terrorista de 8 de janeiro de 2023. Uma multidão que pretendia pôr fim ao governo de Luiz Inácio da Silva, recentemente empossado, invadiu e vandalizou os prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do STF.

As principais lideranças do movimento, com apoio de parlamentares a eles vinculados, tentam articular a aprovação de medida legislativa para que ninguém seja punido por aquelas ações. 

Mas vemos que há inquietude nas bases do grupo golpista, os mais afoitos tentando ações mais ousadas, com atentados terroristas.

Tudo indica que nessa quarta-feira (13 de novembro) um ato isolado pretendia sinalizar nessa direção, com a invasão e a explosão de uma bomba no prédio do Supremo Tribunal Federal, onde estão sendo julgados os responsáveis pela ação golpista no início do governo eleito em 2022.

Aparentemente, um acidente frustrou o "apito de cachorro", levando a bomba a explodir antes de consumada a invasão, vitimando o próprio terrorista. Antes, ele havia anunciado o atentado em redes sociais, inclusive indicando vítimas que pretendia ver atingidas, a que se referia como "comunistas de merda".

De positivo, ficou evidente que esse tipo de ação pode se multiplicar, ainda mais se estimulada pela impunidade que ainda beneficia os seus principais líderes. 

As autoridades são, portanto, chamadas à responsabilidade. Nada de anistia. Punição já. 

(*) Jornalista, Professor Universitário e Administrador

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

AS CARPAS E AS MOEDAS

 Fernando Tolentino*


Longe do contato com seres humanos,

protegidas por contenções de cimento

que as mantinham reclusas naquele espelho d'água,

tendo para si a exclusividade de água permanentemente pura, 

sem o risco de lhes faltar a sua ração, 

a vida parecia assegurada por sabe-se lá quantas décadas. 

Encerradas naquele cubículo cimentado,

ali onde militares em constante revezamento pareciam afastar qualquer proximidade de estranhos, 

parecia certo que nenhum risco delas se aproximaria.

Muitas centenas de quilômetros ao sul do Território Yanomami,

jamais as águas em que há muitos anos flutuavam

poderiam tornar-se impuras.

Quem imagina que não sobreviveriam?

Até a pandemia foi uma realidade distante 

que não atingiu as carpas do Palácio.

Aqueles frágeis seres decerto sonhavam com uma vida quase eterna.

Nunca poderiam supor que o seu único risco estava nas milhares de moedas que forravam o piso da sua piscina.

Quantos anos se passaram sem que elas despertassem a ambição dos inquilinos do Palácio. 

Mas há quem não resista a tudo que lembre fortuna. 

E, se não foram atingidas pelo mercúrio do garimpo ilegal

ou pela falta de oxigênio causada pela covid,

as carpas do Palácio também não resistiram à falta de respiração 

que lhes traria a avidez despertada por aquelas moedas com que antes dividiam tão harmoniosamente sua morada.

*Jornalista

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Seu nome não era Gal – ainda

 RUY CASTRO SOBRE GAL COSTA, 2013

Era Graça ou Gracinha, como a chamavam seus amigos do Solar da Fossa, um casarão colonial de Botafogo, no Rio, onde ela morava, e cujos inquilinos eram tão jovens, criativos, esperançosos, boêmios, bonitos e duros como ela. Caetano, um deles até pouco antes, se mandara para São Paulo. Mas Paulinho da Viola, Itala Nandi, Rogério Duarte, Claudio Marzo, Betty Faria, Maria Gladys, o pessoal do Teatro Jovem e muitos outros, seus vizinhos de porta, continuavam ali, às vésperas das grandes coisas que iriam lhes acontecer.


Era 1967, outubro ou novembro, com o verão às portas. Novo no Solar e na vida, eu a via todos os dias no jardim - vestido e cabelos curtos, sozinha, pensativa, 22 anos, quase incorpórea. Um ano antes, Caetano gravara seu primeiro disco, "Domingo", em que dividia com ela a capa e a faixa de abertura, "Onde Eu Nasci Passa um Rio", e lhe reservara várias faixas para que ela brilhasse sozinha.


O nome Gal estava na capa, sem dúvida, até acima do de Caetano. Mas a voz que saía da vitrola, cantando "Avarandado", "Maria Joana" e outras, parecia tão imaterial quanto sua dona. Era uma voz da bossa nova, voz de travesseiro, feita para soprar intimidades -mas etérea na afinação e quase cruel em sua perfeição. Era como se ela tivesse vindo ao mundo para cantar as canções que João Gilberto nos ficaria devendo.


Algumas semanas depois, já estaríamos em 1968 - ano de que ninguém sairia como entrou. Meninos viraram homens, homens viraram meninos. Correrias, patas de cavalos, tiros nas avenidas, novas palavras de ordem e desordem. Nos quartéis, rumor de sabres – era a noite a caminho. Nos auditórios, artistas de terno da Ducal, de vinco impecável, viam-se dividindo o palco com os de camisolão de bananas e não entendiam nada –era o tropicalismo.


Não me lembro de Gracinha no Solar em 1968. Se continuou lá, já não era vista flanando pelo jardim em que Caetano mandara plantar "folhas de sonho", como na letra de "Panis et Circenses". Ou então fui eu que, aberto às irresistíveis solicitações das ruas naquele ano, não parei muito tempo para observar. Um dia, alguém ligou um rádio e ouvimos sua voz cantando "Baby". Cantando bonito. Por onde andaria Gracinha? Até que, em 1969, essa voz - subitamente extensão de um corpo, ríspida, descabelada, nacos de pele à mostra - anunciou: "Meu nome é Gal! Meu nome é Gal!"

E só então descobrimos que Gracinha tinha se despedido do Solar e do mundo, e dera seu lugar a Gal Costa.

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Folha de S.Paulo 2022

sábado, 6 de novembro de 2021

MARÍLIA COMO UM BEIJA-FLOR

    A nossa homenagem à Marília Mendonça - que de forma trágica e precoce deixou a " todo o mundo" perplexo e desolado - vem por meio deste artigo do jornalista mineiro, radicado em Brasília, José Edmar Gomes. 

José Edmar Gomes (Brother)


    Ela tinha apenas 26 anos, um filho, o mundo a seus pés e um coração que vivera tanto que parecia ter vivido mais do que todos nós. MM era dona de certas palavras e da melodia. Isto estabelecia empatia imediata com o público feminino (e o masculino, também, por que não?). 
    Ela deu voz às mulheres que, até então, engoliam caladas a arrogância e a cafajestagem de nós, homens. Sua certeza de que estava certa, no que cantava e fazia, lhe dava enorme segurança, a fazia feliz e deixava as mulheres, que foram infelizes no amor, de alma lavada.

    Ninguém se lembra de tê-la visto aborrecida ou queixando-se do quer que seja. Se chorava, era porque não prendia emoção que sentia. As lágrimas cristalinas logo se transformavam num sorriso lindo; dos mais sinceros que já vi. Ela não era alegre apenas porque artistas têm que ser simpáticos.

    MM, além de carregar, em si, a alegria e beleza juntas, trazia em seu discurso musical um forte tom libertário, que ia além das mesas de butiquim e chegavam às mentes das mulheres oprimidas que absorviam suas palavras, como um bálsamo para suas dores, mas também como uma resposta definitiva à opressão que engoliram por muitas gerações.

    Nunca foi fácil ser mulher no Brasil e no mundo; desde tempos imemoriais, e MM sabia disso. Mas, ao invés de deprimir-se ou levantar bandeiras raivosas, cantava. E como cantava.

    Cantava e compunha, desde criança e, mesmo não sendo dona de um padrão de beleza exigido pelo mercado, nem apelando para figurinos vulgares, dos quais as “estrelas” de agora abusam, MM se tornou uma diva de sensualidade natural. Iluminava a todos com a luz e a sabedoria, que vêm dos espíritos superiores.

    Inconscientemente, ela carregava, no seu espectro espiritual, algo de Merlyn Monroe, de Dolores Duran, de Ângela Maria, de Inezita Barroso, de Clarice Lispector e da mulher que amamos. Acredito que vocês me entendem, não é?

    Suas verdades e certezas estavam inteiramente expostas, como uma rosa que não volta a ser botão. Ela era a Flor de Goiânia – a nossa esplendorosa Nashville do Planalto – onde, inicialmente, negou o sertanejo, mas acabou se apaixonando pelo gênero, depois de uma paixão de esfregar o chifre no chão. 

    MM, a compositora, como toda poetisa, sabia absorver os sinais divinos, com que a natureza nos presenteia -- tanto nos dias bons, quanto nos dias ruins. Ela -- que cantava como um uirapuru – morreu como um beija flor, deixando um pingo de néctar dentro da grande cachoeira de absurdos, que corre em todas as vidas. 

“...E a flor conhece o beija-flor

E ele lhe apresenta o amor

E diz que o frio é uma fase ruim

Que ela era a flor mais linda do jardim...”

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Um mito que se desmancha no ar

 

Texto do meu amigo jornalista José Edmar Gomes, o Brother. Do blefe à ré.


O mito levou muita gente às ruas. Muito mais do que ele e a oposição esperavam. Esta constatação lhe deu o gás que faltava para ele secretar seu veneno contra as instituições democráticas, que ele detesta e são o empecilho ao seu projeto golpista.

A opção pelo golpe ficou clara, como o sol de Brasília, em suas falas, aqui e em São Paulo. Só que a incapacidade de sua mente, naturalmente obtusa, o impede de ir adiante. Ele quase se derreteu, diante de um mar de seguidores, que o endeusavam, neste 7 de Setembro.

Perdeu a grande oportunidade de colocar em prática seu intento. Afinal, o povo estava nas ruas, apoiando-o e crendo, cegamente, no mito que ele representava. Registre-se que este mesmo povo comportou-se admiravelmente, como devem ser as manifestações democráticas. Em nenhum momento, houve violência, como queria o, hoje, indigitado cantor Sérgio Reis.

O povo cria no mito, porque, bastava uma palavra ou um pedido seu para que aquela multidão aprovasse qualquer iniciativa dele, no sentido de elaborar um projeto de lei, reformando a Constituição, varrendo do mapa institucional o Supremo Tribunal Federal, e outras estruturas constitucionais.

Isto, dentro de determinado prazo, sob pena daquele povão invadir o Congresso e exigir dos parlamentares a aprovação da medida de retrocesso. Mas o mito preferiu mostrar sua ignorância ao propor uma reunião do Conselho da República, que ele não sabe o que é, nem para que serve.

Outra provocação inócua do mito foi a declaração de que não vai obedecer às decisões de um certo ministro do STF. OK. Acho que entendi: não obedece às decisões de um certo ministro... mas, poderá obedecer às decisões dos outros dez. Huum... quem é que entende cabeça de mito?

Parece que, na hora de partir para o tudo ou nada, o mito deu um passo atrás e não teve a necessária coragem para consumar o golpe. Afinal, para que foi montada toda aquela estrutura? 

O povão estava nas ruas, com vigor cívico no coração. Povão e classe média queriam que o seu mito fizesse algo para baixar o preço do feijão, do arroz, do chambaril, do osso buco, da carne (carne?), do gás, da gasolina, do diesel, do aluguel, da cachaça, da cerveja e para que consigamos um trabalho, pelo amor de Deus.

Ocorre que mitos, surgidos do dia pra noite, têm pés de barro e coragem mínima para grandes ações. Eles se escondem atrás de um discurso tosco e de ações reles, que só foram absorvidos por seus eleitores, devido a outros erros de percurso, que a direita e a esquerda já perpetraram, no comando do Brasil.

Por tantos erros, os demais mitos que governaram o Brasil, deixaram o Palácio pela porta dos fundos, ou dentro de um caixão, e o mito da vez faz tudo para que esta situação se repita,  com o intuito de se tornar um ditador e nunca mais levar o povão às ruas. Que destino cruel o nosso! (Quem é que entende cabeça de mito?)


Caudilhos de ocasião sempre têm visão caolha de Nação e de governo, mas a têm. O mito em questão, no entanto, não tem nada disso, muito menos o apoio das Forças Armas, que gostaria de ter. As FAs conhecem seu papel institucional de defesa do Estado e da Constituição. Nem tudo é retrocesso, felizmente.

A grande cartada do mito foi convocar seus eleitores para a grande manifestação do 7 de Setembro. Eles obedeceram, mas ninguém explicou como a banda iria tocar. O mito disse, apenas, que não vai mais obedecer a um certo ministro e que convocaria o Conselho da República...

Parece que o mito queria era que o povão partisse pra a violência e as forças policiais e militares tivessem que intervir e o guindassem ao comando do retrocesso, como propunha algumas faixas, em meio à multidão.

Ocorre que o povo não é bobo, nunca o foi. Cumpriu seu dever cívico, da melhor maneira possível, enquanto o mito destilava suas intenções caudilhescas e ditatoriais. O povão esperava a proposta do mito, que esperava a reação do povão, que não estava a fim de confusão... 

E nada aconteceu; a não ser a palavra canalha, dirigida ao certo ministro, que se tornou o bode expiatório do 7 de Setembro e, talvez, o símbolo de que a Pátria precisa, agora. Mas atacar um ministro só é covardia ou é um ataque à Corte inteira. Ou, ainda, um completo despropósito. 

O mito apresentou sua pior performance, num momento em que seu eleitorado esperava tudo dele. Nunca mais haverá oportunidade igual.

Com tal performance, ele conseguiu apenas ampliar a antipatia que o Congresso e demais instituições democráticas já nutrem por ele. O que o aproxima, inexoravelmente, do impeachment.   

 (José Edmar Gomes, 8 de setembro de 2021)

terça-feira, 1 de junho de 2021

Monte Alegre do Piauí – Breve Histórico e Religiosidade

                       Este texto foi escrito especialmente para ser lido na Missa do dia 9 de maio de 2021, Noite das Mães, da Novena de Nossa Senhora de Fátima, a pedido do Pároco padre Raylon Siqueira. A Missa foi presidida pelo bispo diocesano de Bom Jesus do Gurgueia, D. Marcos Tavoni, tendo como concelebrantes os padres Raylon Siqueira, Júlio Nery e Zorenilton Tavares. A celebração fez parte das Festividades do Jubileu Diocesano  dos 100 anos da Diocese de Bom Jesus do Gurgueia e do Jubileu Paroquial. A leitura do texto coube a Darenilton Braz.


                Monte Alegre do Piauí tem seus primórdios onde se localizavam dois casebres de taipa, cobertos de palha, pertencentes à família Romão. No ano de 1946, o garimpeiro João Néri resolve desbravar a região lavando o cascalho abundante nos leitos e nos barrancos das grotas e riachos. Foi grandemente recompensado com a descoberta de um veio de cascalho que logo se mostrou como uma mina diamantífera de proporção até então inimaginável. Logo, outras minas foram descobertas e surgiram garimpos de diamantes e carbonados de excelente qualidade. A primeira exportação de diamantes ocorreu em setembro de 1946.

            A propagação da notícia das descobertas das minas deu início ao povoamento da futura cidade com a chegada de famílias de municípios e estados vizinhos, especialmente da Bahia – região da Chapada Diamantina, gente dotada de espírito intrépido e domínio das técnicas de garimpagem. O garimpo trouxe pessoas e costumes que moldaram as peculiaridades do futuro gentio monte-alegrense.

Em 1948, o povoado já se destacava em relação à sede do município nos aspectos econômico e demográfico. Foi desmembrado do município de Gilbués, passando a ter território patrimonial autônomo pela Lei Municipal nº 14, de 27 de fevereiro de 1955, sancionada pelo prefeito Deocleciano José de Santana. Sua instalação se verificou a 30 de junho do mesmo ano, sendo seu primeiro prefeito o senhor Herculano de Andrade Negrão. O povoamento e a consequente ocupação do solo pelos primeiros moradores não obedeceram a nenhum padrão ou regra; ocorreram ao bel-prazer de quem construía a barraca destinada à moradia ou ao comércio. Mais tarde, as construções de adobe e alvenaria somente substituíram as barracas. O traçado da cidade continuou a serpentear as grotas e montes, dando-lhe aspecto peculiar e contribuindo para nominar os logradouros de acordo com seus habitantes, seu traçado ou seus marcos existentes. A hospitalidade e a alegria dos habitantes indicam o porquê de ser um monte alegre de gente boa, disposta a acolher e a servir, com suas figuras e estereótipos próprios.

Relatos indicam que desde a chegada das famílias era comum a realização de “rezas” em residências. Cânticos e louvores marcavam esses encontros entre senhoras da comunidade. Mesmo assim, não há uma fonte confiável que possa assegurar como se deu a escolha de Nossa Senhora de Fátima como padroeira da comunidade. Certo é que sua imagem, depois de adquirida, ficou guardada em uma sala da antiga Escola Normal de Gilbués. Em 1957, as professoras do Grupo Escolar José de Anchieta – Daysa Guerra, Maria Rocha e Dalva Figueiredo – decidiram buscar a imagem de Nossa Senhora de Fátima em Gilbués. Para tanto, prepararam na parte de trás do jipe de Francisco Sucupira um altar ladeado por duas crianças vestidas de anjo – Edocília Guimarães e Edinalva Siqueira. A viagem durou todo o dia, diante da precariedade da estrada que ligava as duas cidades.

A imagem foi colocada em um altar em uma sala de aula do Grupo José de Anchieta e ali permaneceu por cerca de um ano. Durante este tempo, os alunos da escola rezavam o Terço com as professoras ao final das aulas durante o mês de maio, como forma de homenagear a Mãe de Fátima.

Posteriormente, a imagem foi levada para a casa de D. Marocas Moraes, na Rua Baiana, até que se construísse a igreja matriz.

A construção da igreja, com o patrocínio do Município, demorou mais tempo que o necessário. Era feita por etapas. Depois de construídas as paredes e como não havia providências para terminar a cobertura, a professora Maria dos Humildes sugeriu uma aula em contato com a natureza e todos os alunos e professores se deslocaram para a localidade Namorado, onde ficavam as olarias de fabrico de telhas. Ao retornar para a escola, todos traziam sobre a cabeça uma quantidade de telhas que lhes fosse capaz de transportar. Assim deu-se a conclusão da obra, com a instalação do telhado. O sino da igreja Matriz foi doado pelo senador bom-jesuense Joaquim Santos Parente.

Posteriormente, foi entronizada a imagem de Nossa Senhora de Fátima no seu altar principal. A comunidade continuou assistida pelo pároco de Gilbués, que aparecia em intervalos de meses, ou por outro sacerdote de passagem pela cidade.

Somente em 1966 foi designado o primeiro vigário, o padre Getúlio de Alencar, que celebrava aos sábados à noite e aos domingos pela manhã, retornando para Gilbués, onde residia.

Em 1967, o então bispo D. José Vásquez, atendendo aos reclamos da comunidade monte-alegrense pela necessidade de ter um pároco residente na cidade, designou o padre Raimundo Dias Negreiros para o desafiador encargo. Ele chegou, cativou, idealizou, educou e ficou para sempre no solo monte-alegrense.

Fundou a Obra Social Nossa Senhora de Fátima, lançou a pedra fundamental e edificou o Ginásio Nossa Senhora de Fátima; criou a Unidade Escolar Manoel Bandeira; aproximou o povo da igreja e a igreja do povo; retomou a prática das desobrigas pelo interior do município; construiu capelas nas comunidades e coroou sua missão evangelizadora com a construção do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, inaugurado em fevereiro de 1990, onde está sepultado por vontade própria. Faleceu em novembro de 1996.

O padre Anísio Borges, após ordenação diaconal, foi designado para auxiliar o já adoentado padre Raimundo, em 1994. Ordenado, foi designado como vigário, até 1996, sucedendo ao padre Raimundo e permanecendo como pároco até 2004. Na sua gestão, levou a D. Ramón Diaz a sugestão de ordenação diaconal de Júlio Neri, considerando a institucionalização do diaconato permanente. Teve como sucessor o padre Antônio Mendes que permaneceu por oito meses à frente da paróquia.

Em 2005, foi designado como pároco o padre José William. De espírito idealizador, promoveu reformas estruturantes na Igreja Matriz e no Santuário, contribuindo, sobremaneira, para a modernização e o embelezamento do espaço Mariano monte-alegrense. Foi na sua gestão a ordenação presbiteral de Júlio Neri, vigário da paróquia até os dias atuais.

Em 2017, foi designado pároco o padre Raylon Siqueira, em substituição ao padre José William. De espírito conciliador - necessário em face das circunstâncias encontradas - Raylon reaproximou a comunidade da igreja e, embora enfrente dificuldades, tem promovido reformas nas instalações dos imóveis da paróquia, dotando-os de estrutura capaz de receber reuniões de pastorais e grupos, além de espaço para realização de outros eventos da comunidade. O padre Raylon tem a auxiliá-lo os padres Júlio Néri e Zorenilton Tavares.

A pandemia em que vive o Brasil tem se refletido também nas ações e campanhas da paróquia. Contudo, mesmo com as dificuldades vividas, não tem sido motivo de impedimento para assistência às comunidades católicas do município, representadas pelas 19 Capelas no interior e três na cidade, além do Santuário e da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima.

Maio é tradicionalmente para a comunidade Mariana monte-alegrense, um tempo de júbilo e homenagens à Maria, Nossa Mãe Santíssima. A procissão de 13 de maio, serpenteando as ruas da cidade, demonstra a fé, a devoção e o amor filial do nosso povo à Nossa Senhora de Fátima.

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, MÃE E RAINHA, ROGAI SEMPRE POR NÓS, VOSSOS FILHOS!                                                                             

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Seguindo a vida

     Aprendi com o tempo a rastelar os problemas da vida.

    Se não tem importância vou deixando para trás.