sábado, 6 de novembro de 2021

MARÍLIA COMO UM BEIJA-FLOR

    A nossa homenagem à Marília Mendonça - que de forma trágica e precoce deixou a " todo o mundo" perplexo e desolado - vem por meio deste artigo do jornalista mineiro, radicado em Brasília, José Edmar Gomes. 

José Edmar Gomes (Brother)


    Ela tinha apenas 26 anos, um filho, o mundo a seus pés e um coração que vivera tanto que parecia ter vivido mais do que todos nós. MM era dona de certas palavras e da melodia. Isto estabelecia empatia imediata com o público feminino (e o masculino, também, por que não?). 
    Ela deu voz às mulheres que, até então, engoliam caladas a arrogância e a cafajestagem de nós, homens. Sua certeza de que estava certa, no que cantava e fazia, lhe dava enorme segurança, a fazia feliz e deixava as mulheres, que foram infelizes no amor, de alma lavada.

    Ninguém se lembra de tê-la visto aborrecida ou queixando-se do quer que seja. Se chorava, era porque não prendia emoção que sentia. As lágrimas cristalinas logo se transformavam num sorriso lindo; dos mais sinceros que já vi. Ela não era alegre apenas porque artistas têm que ser simpáticos.

    MM, além de carregar, em si, a alegria e beleza juntas, trazia em seu discurso musical um forte tom libertário, que ia além das mesas de butiquim e chegavam às mentes das mulheres oprimidas que absorviam suas palavras, como um bálsamo para suas dores, mas também como uma resposta definitiva à opressão que engoliram por muitas gerações.

    Nunca foi fácil ser mulher no Brasil e no mundo; desde tempos imemoriais, e MM sabia disso. Mas, ao invés de deprimir-se ou levantar bandeiras raivosas, cantava. E como cantava.

    Cantava e compunha, desde criança e, mesmo não sendo dona de um padrão de beleza exigido pelo mercado, nem apelando para figurinos vulgares, dos quais as “estrelas” de agora abusam, MM se tornou uma diva de sensualidade natural. Iluminava a todos com a luz e a sabedoria, que vêm dos espíritos superiores.

    Inconscientemente, ela carregava, no seu espectro espiritual, algo de Merlyn Monroe, de Dolores Duran, de Ângela Maria, de Inezita Barroso, de Clarice Lispector e da mulher que amamos. Acredito que vocês me entendem, não é?

    Suas verdades e certezas estavam inteiramente expostas, como uma rosa que não volta a ser botão. Ela era a Flor de Goiânia – a nossa esplendorosa Nashville do Planalto – onde, inicialmente, negou o sertanejo, mas acabou se apaixonando pelo gênero, depois de uma paixão de esfregar o chifre no chão. 

    MM, a compositora, como toda poetisa, sabia absorver os sinais divinos, com que a natureza nos presenteia -- tanto nos dias bons, quanto nos dias ruins. Ela -- que cantava como um uirapuru – morreu como um beija flor, deixando um pingo de néctar dentro da grande cachoeira de absurdos, que corre em todas as vidas. 

“...E a flor conhece o beija-flor

E ele lhe apresenta o amor

E diz que o frio é uma fase ruim

Que ela era a flor mais linda do jardim...”

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Um mito que se desmancha no ar

 

Texto do meu amigo jornalista José Edmar Gomes, o Brother. Do blefe à ré.


O mito levou muita gente às ruas. Muito mais do que ele e a oposição esperavam. Esta constatação lhe deu o gás que faltava para ele secretar seu veneno contra as instituições democráticas, que ele detesta e são o empecilho ao seu projeto golpista.

A opção pelo golpe ficou clara, como o sol de Brasília, em suas falas, aqui e em São Paulo. Só que a incapacidade de sua mente, naturalmente obtusa, o impede de ir adiante. Ele quase se derreteu, diante de um mar de seguidores, que o endeusavam, neste 7 de Setembro.

Perdeu a grande oportunidade de colocar em prática seu intento. Afinal, o povo estava nas ruas, apoiando-o e crendo, cegamente, no mito que ele representava. Registre-se que este mesmo povo comportou-se admiravelmente, como devem ser as manifestações democráticas. Em nenhum momento, houve violência, como queria o, hoje, indigitado cantor Sérgio Reis.

O povo cria no mito, porque, bastava uma palavra ou um pedido seu para que aquela multidão aprovasse qualquer iniciativa dele, no sentido de elaborar um projeto de lei, reformando a Constituição, varrendo do mapa institucional o Supremo Tribunal Federal, e outras estruturas constitucionais.

Isto, dentro de determinado prazo, sob pena daquele povão invadir o Congresso e exigir dos parlamentares a aprovação da medida de retrocesso. Mas o mito preferiu mostrar sua ignorância ao propor uma reunião do Conselho da República, que ele não sabe o que é, nem para que serve.

Outra provocação inócua do mito foi a declaração de que não vai obedecer às decisões de um certo ministro do STF. OK. Acho que entendi: não obedece às decisões de um certo ministro... mas, poderá obedecer às decisões dos outros dez. Huum... quem é que entende cabeça de mito?

Parece que, na hora de partir para o tudo ou nada, o mito deu um passo atrás e não teve a necessária coragem para consumar o golpe. Afinal, para que foi montada toda aquela estrutura? 

O povão estava nas ruas, com vigor cívico no coração. Povão e classe média queriam que o seu mito fizesse algo para baixar o preço do feijão, do arroz, do chambaril, do osso buco, da carne (carne?), do gás, da gasolina, do diesel, do aluguel, da cachaça, da cerveja e para que consigamos um trabalho, pelo amor de Deus.

Ocorre que mitos, surgidos do dia pra noite, têm pés de barro e coragem mínima para grandes ações. Eles se escondem atrás de um discurso tosco e de ações reles, que só foram absorvidos por seus eleitores, devido a outros erros de percurso, que a direita e a esquerda já perpetraram, no comando do Brasil.

Por tantos erros, os demais mitos que governaram o Brasil, deixaram o Palácio pela porta dos fundos, ou dentro de um caixão, e o mito da vez faz tudo para que esta situação se repita,  com o intuito de se tornar um ditador e nunca mais levar o povão às ruas. Que destino cruel o nosso! (Quem é que entende cabeça de mito?)


Caudilhos de ocasião sempre têm visão caolha de Nação e de governo, mas a têm. O mito em questão, no entanto, não tem nada disso, muito menos o apoio das Forças Armas, que gostaria de ter. As FAs conhecem seu papel institucional de defesa do Estado e da Constituição. Nem tudo é retrocesso, felizmente.

A grande cartada do mito foi convocar seus eleitores para a grande manifestação do 7 de Setembro. Eles obedeceram, mas ninguém explicou como a banda iria tocar. O mito disse, apenas, que não vai mais obedecer a um certo ministro e que convocaria o Conselho da República...

Parece que o mito queria era que o povão partisse pra a violência e as forças policiais e militares tivessem que intervir e o guindassem ao comando do retrocesso, como propunha algumas faixas, em meio à multidão.

Ocorre que o povo não é bobo, nunca o foi. Cumpriu seu dever cívico, da melhor maneira possível, enquanto o mito destilava suas intenções caudilhescas e ditatoriais. O povão esperava a proposta do mito, que esperava a reação do povão, que não estava a fim de confusão... 

E nada aconteceu; a não ser a palavra canalha, dirigida ao certo ministro, que se tornou o bode expiatório do 7 de Setembro e, talvez, o símbolo de que a Pátria precisa, agora. Mas atacar um ministro só é covardia ou é um ataque à Corte inteira. Ou, ainda, um completo despropósito. 

O mito apresentou sua pior performance, num momento em que seu eleitorado esperava tudo dele. Nunca mais haverá oportunidade igual.

Com tal performance, ele conseguiu apenas ampliar a antipatia que o Congresso e demais instituições democráticas já nutrem por ele. O que o aproxima, inexoravelmente, do impeachment.   

 (José Edmar Gomes, 8 de setembro de 2021)

terça-feira, 1 de junho de 2021

Monte Alegre do Piauí – Breve Histórico e Religiosidade

                       Este texto foi escrito especialmente para ser lido na Missa do dia 9 de maio de 2021, Noite das Mães, da Novena de Nossa Senhora de Fátima, a pedido do Pároco padre Raylon Siqueira. A Missa foi presidida pelo bispo diocesano de Bom Jesus do Gurgueia, D. Marcos Tavoni, tendo como concelebrantes os padres Raylon Siqueira, Júlio Nery e Zorenilton Tavares. A celebração fez parte das Festividades do Jubileu Diocesano  dos 100 anos da Diocese de Bom Jesus do Gurgueia e do Jubileu Paroquial. A leitura do texto coube a Darenilton Braz.


                Monte Alegre do Piauí tem seus primórdios onde se localizavam dois casebres de taipa, cobertos de palha, pertencentes à família Romão. No ano de 1946, o garimpeiro João Néri resolve desbravar a região lavando o cascalho abundante nos leitos e nos barrancos das grotas e riachos. Foi grandemente recompensado com a descoberta de um veio de cascalho que logo se mostrou como uma mina diamantífera de proporção até então inimaginável. Logo, outras minas foram descobertas e surgiram garimpos de diamantes e carbonados de excelente qualidade. A primeira exportação de diamantes ocorreu em setembro de 1946.

            A propagação da notícia das descobertas das minas deu início ao povoamento da futura cidade com a chegada de famílias de municípios e estados vizinhos, especialmente da Bahia – região da Chapada Diamantina, gente dotada de espírito intrépido e domínio das técnicas de garimpagem. O garimpo trouxe pessoas e costumes que moldaram as peculiaridades do futuro gentio monte-alegrense.

Em 1948, o povoado já se destacava em relação à sede do município nos aspectos econômico e demográfico. Foi desmembrado do município de Gilbués, passando a ter território patrimonial autônomo pela Lei Municipal nº 14, de 27 de fevereiro de 1955, sancionada pelo prefeito Deocleciano José de Santana. Sua instalação se verificou a 30 de junho do mesmo ano, sendo seu primeiro prefeito o senhor Herculano de Andrade Negrão. O povoamento e a consequente ocupação do solo pelos primeiros moradores não obedeceram a nenhum padrão ou regra; ocorreram ao bel-prazer de quem construía a barraca destinada à moradia ou ao comércio. Mais tarde, as construções de adobe e alvenaria somente substituíram as barracas. O traçado da cidade continuou a serpentear as grotas e montes, dando-lhe aspecto peculiar e contribuindo para nominar os logradouros de acordo com seus habitantes, seu traçado ou seus marcos existentes. A hospitalidade e a alegria dos habitantes indicam o porquê de ser um monte alegre de gente boa, disposta a acolher e a servir, com suas figuras e estereótipos próprios.

Relatos indicam que desde a chegada das famílias era comum a realização de “rezas” em residências. Cânticos e louvores marcavam esses encontros entre senhoras da comunidade. Mesmo assim, não há uma fonte confiável que possa assegurar como se deu a escolha de Nossa Senhora de Fátima como padroeira da comunidade. Certo é que sua imagem, depois de adquirida, ficou guardada em uma sala da antiga Escola Normal de Gilbués. Em 1957, as professoras do Grupo Escolar José de Anchieta – Daysa Guerra, Maria Rocha e Dalva Figueiredo – decidiram buscar a imagem de Nossa Senhora de Fátima em Gilbués. Para tanto, prepararam na parte de trás do jipe de Francisco Sucupira um altar ladeado por duas crianças vestidas de anjo – Edocília Guimarães e Edinalva Siqueira. A viagem durou todo o dia, diante da precariedade da estrada que ligava as duas cidades.

A imagem foi colocada em um altar em uma sala de aula do Grupo José de Anchieta e ali permaneceu por cerca de um ano. Durante este tempo, os alunos da escola rezavam o Terço com as professoras ao final das aulas durante o mês de maio, como forma de homenagear a Mãe de Fátima.

Posteriormente, a imagem foi levada para a casa de D. Marocas Moraes, na Rua Baiana, até que se construísse a igreja matriz.

A construção da igreja, com o patrocínio do Município, demorou mais tempo que o necessário. Era feita por etapas. Depois de construídas as paredes e como não havia providências para terminar a cobertura, a professora Maria dos Humildes sugeriu uma aula em contato com a natureza e todos os alunos e professores se deslocaram para a localidade Namorado, onde ficavam as olarias de fabrico de telhas. Ao retornar para a escola, todos traziam sobre a cabeça uma quantidade de telhas que lhes fosse capaz de transportar. Assim deu-se a conclusão da obra, com a instalação do telhado. O sino da igreja Matriz foi doado pelo senador bom-jesuense Joaquim Santos Parente.

Posteriormente, foi entronizada a imagem de Nossa Senhora de Fátima no seu altar principal. A comunidade continuou assistida pelo pároco de Gilbués, que aparecia em intervalos de meses, ou por outro sacerdote de passagem pela cidade.

Somente em 1966 foi designado o primeiro vigário, o padre Getúlio de Alencar, que celebrava aos sábados à noite e aos domingos pela manhã, retornando para Gilbués, onde residia.

Em 1967, o então bispo D. José Vásquez, atendendo aos reclamos da comunidade monte-alegrense pela necessidade de ter um pároco residente na cidade, designou o padre Raimundo Dias Negreiros para o desafiador encargo. Ele chegou, cativou, idealizou, educou e ficou para sempre no solo monte-alegrense.

Fundou a Obra Social Nossa Senhora de Fátima, lançou a pedra fundamental e edificou o Ginásio Nossa Senhora de Fátima; criou a Unidade Escolar Manoel Bandeira; aproximou o povo da igreja e a igreja do povo; retomou a prática das desobrigas pelo interior do município; construiu capelas nas comunidades e coroou sua missão evangelizadora com a construção do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, inaugurado em fevereiro de 1990, onde está sepultado por vontade própria. Faleceu em novembro de 1996.

O padre Anísio Borges, após ordenação diaconal, foi designado para auxiliar o já adoentado padre Raimundo, em 1994. Ordenado, foi designado como vigário, até 1996, sucedendo ao padre Raimundo e permanecendo como pároco até 2004. Na sua gestão, levou a D. Ramón Diaz a sugestão de ordenação diaconal de Júlio Neri, considerando a institucionalização do diaconato permanente. Teve como sucessor o padre Antônio Mendes que permaneceu por oito meses à frente da paróquia.

Em 2005, foi designado como pároco o padre José William. De espírito idealizador, promoveu reformas estruturantes na Igreja Matriz e no Santuário, contribuindo, sobremaneira, para a modernização e o embelezamento do espaço Mariano monte-alegrense. Foi na sua gestão a ordenação presbiteral de Júlio Neri, vigário da paróquia até os dias atuais.

Em 2017, foi designado pároco o padre Raylon Siqueira, em substituição ao padre José William. De espírito conciliador - necessário em face das circunstâncias encontradas - Raylon reaproximou a comunidade da igreja e, embora enfrente dificuldades, tem promovido reformas nas instalações dos imóveis da paróquia, dotando-os de estrutura capaz de receber reuniões de pastorais e grupos, além de espaço para realização de outros eventos da comunidade. O padre Raylon tem a auxiliá-lo os padres Júlio Néri e Zorenilton Tavares.

A pandemia em que vive o Brasil tem se refletido também nas ações e campanhas da paróquia. Contudo, mesmo com as dificuldades vividas, não tem sido motivo de impedimento para assistência às comunidades católicas do município, representadas pelas 19 Capelas no interior e três na cidade, além do Santuário e da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima.

Maio é tradicionalmente para a comunidade Mariana monte-alegrense, um tempo de júbilo e homenagens à Maria, Nossa Mãe Santíssima. A procissão de 13 de maio, serpenteando as ruas da cidade, demonstra a fé, a devoção e o amor filial do nosso povo à Nossa Senhora de Fátima.

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, MÃE E RAINHA, ROGAI SEMPRE POR NÓS, VOSSOS FILHOS!                                                                             

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Seguindo a vida

     Aprendi com o tempo a rastelar os problemas da vida.

    Se não tem importância vou deixando para trás.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Os desafios do desemprego e pobreza a serem enfrentados pelo próximo governo


A pobreza que mina grande parte da população brasileira não escolhe entre trabalhadores empregados e desempregados. O desemprego assombra famílias e puxa as estatísticas do mercado de trabalho para índices estratosféricos e desanimadores. Ao contrário do que esperavam os especialistas e os políticos, a Reforma Trabalhista não alavancou o emprego, criou instabilidade, minou as forças das representações sindicais, enfim, não produziu nada de positivo para a classe trabalhadora e, como consequência. não melhorou os índices do governo. Um fiasco.
Neste artigo abaixo, a doutora, professora e economista Flávia Vinhaes¹, aborda o tema sob um título sugestivo e instigante que reproduzo aqui.
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Ela entrou no ônibus pela porta de trás, com um bebê de poucos meses enrolado ao seu corpo, carregava numa mão uma sacola infantil; na outra, uma caixa de barrinhas de cereal para vender. E repetindo a fala corriqueira dos ambulantes que vendem pequenezas nos transportes públicos das grandes cidades, enfatizou que não queria incomodar, mas precisava comprar leite para o seu fi­lho e pedia que ajudássemos comprando-lhe as barrinhas.         
A personagem ilustrada no parágrafo anterior é uma trabalhadora por conta própria, assim está classi­ficada nas estatísticas so­ciais de mercado de trabalho. O que sua condição nos mostra é que a pobreza e a exclusão social não estão associadas, apenas, ao desemprego, em particular o de longa duração. Há uma ampla evidência de que a falta de trabalho causa pobreza e consequentemente o trabalho é visto como o maior antídoto a ela, entretanto, estar no mercado de trabalho já não é garantia sufi­ciente de uma vida decente para o trabalhador e sua família.
Cresce, em vários países, a pobreza entre as pessoas ocupadas. Esse fenômeno encontra suas principais causas numa combinação de fatores, tais como, o trabalho mal remunerado, a instabilidade no emprego, o regressivo sistema tributário, a fragilidade da representação sindical, a subocupação por insu­ficiência de horas trabalhadas e a ausência de creches públicas onde as mães possam deixar seus ­filhos para retornarem ao mercado de trabalho.
Em 2017, a pobreza alcançou 26% da população brasileira, se utilizada a linha internacional de pobreza do Banco Mundial de US$ 5,5 PPP (paridade do poder aquisitivo) ao dia – algo em torno de R$ 400,00 por mês – que leva em conta a renda média e o nível de desenvolvimento do país. Entre os trabalhadores, esse percentual chegou a 16%, ou seja, essa era a proporção de pessoas que, mesmo trabalhando, não tinham rendimento su­ciente para ultrapassar a linha de pobreza. Este indicador é ainda mais dramático quando falamos de jovens trabalhadores ou de trabalhadores de cor preta ou parda, dentre os quais a privação é ainda mais intensa.
Sem nenhuma dúvida o primeiro passo em direção à erradicação da pobreza é a criação de mais e melhores empregos. As várias formas de relações de trabalho que fogem ao contrato tradicional, característico de mercados mais estruturados em setores mais produtivos e organizados da sociedade, ­figuram agora na nova CLT. Os contratos “on-call” ou “zero-hora”, no qual o trabalhador só recebe remuneração pelo período em que prestou o serviço e se prestou o serviço, apresentam graves problemas na organização laboral com forte impacto social na medida em que reduzem as contribuições previdenciárias e os direitos trabalhistas. Segundo o Ministério do Trabalho, em maio de 2018, 10% do emprego criado com carteira de trabalho, foi sob este tipo de contrato.
A expansão do emprego sem carteira e do trabalho por conta própria, da ordem de 2,2 milhões de pessoas, entre 2015 e 2018, e a queda dos vínculos com carteira, em aproximadamente 3,4 milhões de trabalhadores no mesmo período, não parecem apontar para a melhora nas condições de trabalho e para a minimização do risco dos baixos salários.
A queda mais persistente das taxas de pobreza e extrema pobreza no país, entre 2004 e 2014, muito se deveu à melhora no mercado laboral, em termos de geração de postos, formalização dos vínculos e crescimento real do salário mínimo. Essas políticas, somadas aos programas federal e estadual de transferência de renda, foram imprescindíveis na busca por uma sociedade mais justa e igualitária.
Ao próximo governo caberá, mais uma vez, o enfrentamento do desemprego, em especial o de jovens, mas também o de mulheres responsáveis pelo domicílio, melhorando a estabilidade no emprego de forma a romper o ciclo “low-pay, no-pay” de trabalhadores que oscilam entre os baixos salários e o desemprego, se perpetuando na condição de pobreza.

¹Doutora em Economia/UFRJ; professora da Universidade Candido Mendes; integrante do Conselho Regional de Economia (Corecon-RJ).

Jornal do Brasil, Opinião, 20.8.2018, pág. 8

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

ONU reconhece o direito de Lula participar das eleições presidenciais no Brasil

O Brasil é membro fundador da Organização das Nações Unidas-ONU e mantém representação em quatro escritórios da Organização, inclusive, na cidade de Genebra, na Suíça, de onde foi emitido o comunicado oficial à Missão Permanente do Brasil junto ao Escritório das Nações Unidas (veja na íntegra, abaixo).
Como país membro participa, efetivamente, de operações intervencionistas da ONU sejam elas militares, politicas e/ou humanitárias etc.
Agora, ao receber a comunicação, os lacaios oportunistas gravitam no discurso do não acatamento à orientação da Organização sobre o direito de Lula participar das eleições como candidato à Presidência da República.
Será o assombro por uma derrota do esquema pela vontade popular? Será, propositadamente, um desrespeito às convenções assumidas perante a ONU, ao arrepio dos acordos internacionais? Será a face oculta de uma ditadura que se instalou pelo golpe de 2016?
O certo é que não nos é possível silenciar quanto à evidente desobediência por parte do Governo do Brasil. Desobediência que contribuirá para avivar a pecha da República de Bananas.

Íntegra da tradução do texto da ONU que reconhece o direito de Lula participar das eleições presidenciais no Brasil
NAÇÕES UNIDAS
DIREITOS HUMANOS
ESCRITÓRIO DO ALTO COMISSÁRIO
ESCRITÓRIO DO ALTO COMISSÁRIO DE DIREITOS HUMANOS
PALÁCIO DAS NAÇÕES * 1211 GENEBRA 10, SUÍÇA
www.ohchr.org –TEL + 41 22 917 9895 – FAX: + 41 22 917 9008 – E-MAIL: petitions@ohchr.org

O Secretariado das Nações Unidas, o Escritório do Alto Comissário de Direitos Humanos, cumprimenta a Missão Permanente do Brasil junto ao Escritório das Nações Unidas em Genebra e tem a honra de transmitir, para fins de informação, a petição dos advogados e o pedido por medida provisional apresentado no dia 27 de julho de 2018 a respeito do comunicado de nº 2841/2016, que foi apresentado ao Comitê de Direitos Humanos para análise à luz do Protocolo Facultativo referente ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos em favor do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva.
O Comitê, através de seu Relator Especial sobre Novos Comunicados e Pedidos por Medidas Provisionais, avaliou as alegações do autor datadas de 27 de julho de 2018 e concluiu que os fatos relatados indicam a existência de possível dano irreparável aos direitos autor sob exame pelo Comitê, conforme a regra processual no. 92, o Comitê do autor previstos no artigo 25 do Pacto. Portanto, estando o comunicado do requisita ao Estado-Parte a adoção de todas as medidas necessárias para de 2018, o que inclui o acesso adequado à imprensa e aos membros de seu partido assegurar que o requerente usufrua e exerça todos os seus direitos políticos enquanto está na prisão, na qualidade de candidato nas eleições presidenciais a sentença condenatória sejam julgados em processos judiciais justos e a político;requisita também que o Estado-Parte não impeça o autor de concorrer nas eleições presidenciais de 2018 até que todos os recursos impetrados contra sentença esteja transitada em julgado.

Esta solicitação não sugere que o
Comitê tenha chegado a uma decisão a respeito da questão atualmente em exame.
17 de agosto de 2018

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Morre Cândido Carvalho Guerra


Morre, aos 95 anos e seis meses, Cândido Carvalho Guerra, na cidade de Corrente-PI. 

Professor, romancista, cronista, contista e poeta, mestre de muitos mestres do sul piauiense, sua morte abre uma lacuna na literatura e nas letras. 


Deixa um rico legado. 
É autor do Hino da Cidade de Corrente, do Hino do Ginásio Nossa Senhora de Fátima, de Monte Alegre do Piauí, entre outros.
Seus livros inspirados no cotidiano vivenciado por ele e pelo gentio da região perpetuam rudimentares costumes e situações de uma época.

Dentre eles pinço "Do Calcinado Agreste ao Inferno Verde" e "O Martelo Vingador" sagas típicas da nossa região.

Em correspondência trocada entre Cândido Carvalho Guerra  e o autor do "Dicionário de Sabedoria dos Piauenses", José Antônio da Silva, ele agradece o recebimento da publicação e a inclusão de verbetes da sua lavra. Desta correspondência, extraio o recorte sobre as citações dele para futura reedição do Dicionário. As expressões sugeridas, bem ao seu feitio, são: Arte, Instrução e Educação, Literatura Natureza e Dinheiro, Caráter e Amor.

Ao Criador, nossas preces para o acolhimento e o descanso eterno da alma de Cândido Guerra.